2006-02-18

"Então tudo bem?"

vindo de alguém a quem eu não quero dar conversa, é uma pergunta à qual tenho a resposta "33" na ponta da língua: "Tudo na graça de Deus!". Li algures (num jornal, numa revista, num blog... não sei, não me lembro, só sei que li há pouco tempo e se foi no blog de alguém que se acuse para dar a devida autoria) que é o tipo de pergunta que só espera um tipo de resposta: a positiva. Defendia o autor que se o interlocutor respondesse qualquer coisa como "Por acaso, já que perguntas a minha vida está uma #$&?#N1" que a conversa ficar-se-ia por ali, deixando quem fez a pergunta extremamente embaraçado.
Ora, por acaso tenho uma teoria completamente oposta e por isso o "Tudo na graça de Deus!" costuma chegar para pôr a milhas quem quer que fez a pergunta. Ninguém está interessado na felicidade alheia - é a cultura portuguesa das carpideiras, verdadeiras vampiras que se alimentam do sofrimento alheio. Dizia um professor meu de História de 10º ano que o motivo pelo qual muitas pessoas vão a funerais, especialmente quando não existe qualquer ligação ao morto ou à respectiva família, é para se sentirem vivas.
Desde há muito que observo nas pessoas essa tendência para quererem ouvir ou ler histórias tristes. Quando depois do "Então tudo bem?" vem um "Nem tudo, acabei de vir do médico..." é quase certo que a conversa se desenrolará por mais 30 a 40 minutos, se não mais. Às vezes penso: será uma manifestação de solidariedade? Mas quase sempre, após ouvir a história desgraçada de quem veio do médico, o outro consegue suplantá-lo com uma história pessoal ainda mais triste. Começa aí a competição de qual dos dois será o mais desgraçado. Porque no fundo ficamos felizes com a miséria alheia, mas não queremos ser menos merecedores de compaixão do que os outros.
Os primeiros "babyblogs" que visitei há uns meses atrás transmitiam uma cópia dessa infernal realidade. Quanto mais desgraças viver a mãe, quanto menos dormir, quanto mais sofrer, mais comentários terá por consequência o "blog". Isso não seria mau se os comentários dessem alguma perspectiva positiva - coisa que procuro sempre dar nos comentários que faço, tal como faço na minha vida. Mas não. São feitos sempre com a "paciência", o "coitada" e muitas vezes com o "eu sei o que estás a passar" - mas como é que alguém pode saber o que outra pessoa sente?... nem uma mãe sabe o que o filho sente, quanto mais - talvez gémeos, e ainda assim. É raríssimo ler um "post" alegre com muitos comentários de seguida e, para ser franca, são esses que me dão prazer comentar e vou logo ver quem comentou e visitar o respectivo cantinho. E, regra geral, gosto do que encontro.

Adenda: Se há coisa que eu aprendi é que quando três pessoas diferentes interpretam mal o que queríamos dizer, não é porque sejam burras. É porque nos explicámos mal. Portanto aqui vai uma tentativa de me explicar melhor. Se não for bem sucedida avisem por favor. Ora o que me fez confusão inicial não foi o facto de as pessoas desabafarem os seus problemas. Um blog é um espaço pessoal, no qual as pessoas são livres de dizerem o que querem e poderá ser uma excelente forma de "deitar cá para fora". O que me faz confusão é, primeiro, quando alguém decide dizer que está triste e todos correm para dizer que não pode ser (estar triste é um fenómeno natural do ser humano e há momentos em que é a única coisa que queremos sentir e temos o direito de o sentir; que se diga que amanhã é um novo dia já é outra história); segundo, faz-me alguma confusão a ausência de propostas para melhorar a situação quando estas existem (eu faço-as, só as segue quem quer como é lógico - se todos fizéssemos da mesma maneira, o mundo seria muito aborrecido, além de que há sempre uma maneira melhor que eu desconheço); e finalmente, faz-me confusão que quando alguém diz num post que está "Tudo na graça de Deus" poucos comentem para dizer "ainda bem". Espero ter conseguido :o).

N1: merda - mas já que isto pode ser considerada linguagem ofensiva, remeto-a para o rodapé de notas.

N2: Descobriste que se soprares no trompete, sai som. Tens passado o dia todo nisso. Depois da carreira de cantora lírica ter ficado comprometida com a quantidade de guinchos e gritos, eis que surge uma oportunidade no mundo da música.

7 comments:

Céu Estrelado said...

O português é assim mesmo como aqui o relatas...vi que não deixas de ter razão naquilo que aqui escreves, se bem... que há situações chamadas "maneiras de falar", e ao ler muitos comentários aprecebemo-nos que a maior parte utiliza a mesma "maneira de falar" lol
Gostei de saber que vais ter uma grande oportunidade, raras as pessoas que trabalham naquilo que gostam...agarra-a bem já que esperaram por ti e tudo!
Bjos vou comentar mais acima ihihih

. said...

Bem, portugueses somos todos nós. Tenho uma colega que, em cinco anos de conhecimento, nunca me respondeu "está tudo bem". Está sempre tudo mau...Ora para esse tipo de gente também não tenho paciência. És capaz de ter razão no que dizes em relação aos comentários dos blogs. Vou estar mais atenta ao fenónemo. Há uma coisa que não consigo digerir muito bem: pessoas que desatam a contar episódios íntimos a dizer mal dos familiares (especialmente os pais), com citações e tudo, como se fosse uma novela. Se fosse a contar coisas engraçadas, fazia todo o sentido. Não sei é como essas pessoas não têm medo que alguém conhecido leia e vá contar tudo aos visados. Acho que há coisas íntimas demais que TODOS gostam de ler, pois claro. A fraqueza de uns é a força dos outros.

sonia said...

Somos o país do fado, gostamos dos dramas, das lágrimas , mas julgo que quem respode assim são as pessoas que se entregam demasiado aos problemas da vida é normal, a vida não está fácil.
É sempre mais dificil encarar a alegria alheia que a tristesa (embora não concorde), porque esquecemos fácilmente as coisas boas da vida em prol das más.
Faz parte da natureza humana, e de a cultura de uma região, se fores ao Brasil a coisa muda de figura ;)

Quanto aos comentários dos país, por vezes deixados em blogs, vejo-os mais como uma forma de entre-ajuda. A pessoa pode não ter passado pelo mesmo, mas ter tido uma situação idêntica. Quem é que nunca se preocupou com uma doença de um pequenote, ou não sofreu com as noites mal dormidas? São situações que acontecem a todos os que são pais, ou que convivem com crianças e penso que é mais nesse sentido que os comentários são feitos, numa de apoiar e descansar quem sofre, mostrando que tb já passou por isso e resistiu.

São formas de lidar com as coisas, eu não sou choramingas, e não gosto de ler desgraças alheias, mas se a pessoa que escreve espera força, então o no meu comentário tentarei transmitir alguma.
:))

Desculpa se me alonguei, mas adoro comportamento humano.
beijinhos.

sonia said...

Oh linda, tu explicaste-te bem LOL.
Pelo menos é esta a ideia com que fiquei de ler o post ontem :P
Mas como te disse é o país de fados, e é mais fácil chorar com o outro do que lhe dar os parabéns e sorrir.
Olha é a mesma coisa que uma "gaija" dizer - Vou ao wc...
pronto... é contá-las e vê-las aos pares :P
Eu pessoalmente não gosto de companhia á casa de banho, mas fazer o quê!?!

Beijinhos!!

Tita Dom said...

...O que eu gostei deste post! Concordo em grau e numero.
:-)

Mamã artesã said...

Concordo plenamente com o que dizes. Quando escrevo posts tristes não é com o intuito de ter muitos comentários mas sim para descarregar a minha tristeza em palavras. Mas já reparei que são esses os posts que mais comentários têm e é mesmo como dizes. O único post em que tive muitos comentários e que não era triste foi o do dia do meu aniversário. Também já cheguei à conclusão (há muito tempo) de que as pessoas se "divertem" com a desgraça alheia.
Tento sempre comentar, seja o post triste ou alegre nem que seja só para deixar uma beijoca.
Joquinhas grandes
Sofia

Suzana said...

Definitivamente.....

Gosto de te ler!!!! Sem papas na língua ;o)